VILA OPERÁRIA DE GALÓPOLIS

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A vila operária está localizada no bairro de Galópolis, Caxias do Sul, RS, e revela um patrimônio industrial remanescente da cultura implantada pelos imigrantes italianos que se estabeleceram no local no final do século XIX. Como apresenta a Carta de Nizhny Tagil, elaborada em 2003 pelo Comitê Internacional para Conservação do Patrimônio Industrial, não somente os edifícios possuem valor para ser considerados como patrimônio industrial, e sim todas as relações que ali existiram:

“O patrimônio industrial compreende os vestígios da cultura industrial que possuem valor histórico, tecnológico, social, arquitetônico ou científico. Estes vestígios englobam edifícios e maquinaria, oficinas, fábricas, minas e locais de tratamento e de refino, entrepostos e armazéns, centros de produção, transmissão e utilização de energia, meios de transporte e todas as suas estruturas e infra-estruturas, assim como os locais onde se desenvolveram atividades sociais relacionadas com a industria, tais como habitações, locais de culto ou de educação (Carta de Nizhny Tagil, 2003, item 1).

Esta vila operária está diretamente relacionada com o Lanifício São Pedro, primeira cooperativa têxtil da região nordeste do Rio Grande do Sul, local onde trabalharam muito imigrantes do norte da Itália, região produtora de lã. A localidade de Galópolis (denominada assim a partir de 1914, substituindo o nome Vale del Profondo) foi crescendo, assim como a vila operária, à medida que a fábrica têxtil se expandia. Nesse sentido, o patrimônio industrial faz parte da vida cotidiana desta comunidade.

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A vila operária começou a ser construída em 1912 após a formação da sociedade de Hercules Galló com a família Chaves. Iniciaram a implantação de um plano habitacional que garantisse a permanência da mão de obra especializada próximo à fabrica, especialmente os funcionários estrangeiros que foram contratados. As casas eram de propriedade da fábrica e dimensionadas de acordo com o numero de funcionários necessários. Os morados que recebiam o imóvel pagavam um aluguel simbólico, que variava de acordo com a tipologia da casa e com o cargo ocupado no lanifício.

As primeiras casas foram construídas em madeira, entre 1914 e 1916, com tipologia geminada e idênticas.

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Fonte: Acervo do Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami

Após a morte de Hercules Galló, em 1928 a família Galló vendeu toda a sua parte para o grupo Chaves Barcellos, surgindo então a Sociedade Anônima Companhia Lanifício São Pedro. Nesse momento, a fábrica possuía 43 casas utilizadas para moradia dos operários. Já em 1955, segundo registros, o conjunto de moradias chegava a 80 residências. Para os operários foram construídas mais casas de alvenaria. Em 1939 foi iniciada a construção da Igreja Matriz na praça central, em frente às residências operarias. Além das moradias, a vila atendia todas as necessidades dos operários reforçando o sentido de comunidade, com escola, igreja, praça, um sindicato e mais tarde um cinema. Ou seja, os operários tinham suas necessidades supridas no local onde trabalhavam, o mesmo onde moravam, aumentando assim o vinculo empresa-operário.

No conjunto residencial, podemos distinguir duas tipologias: casas geminadas com divisão em duas ou três residências. Todas apresentam o mesmo sistema construtivo com alvenaria de tijolos portantes aparentes, contraventados com pilares externos e tirantes, lajes de entrepiso apoiadas nas diferentes espessuras de parede (como um efeito pirâmide, as paredes dos primeiro pavimento mais espessa que a do segundo), divisórias internas de madeira e telhado em duas águas. Porém pequenos detalhes diferenciam uma tipologia da outra, especialmente quanto ao nível de acabamento.

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As casas duplas contam com seis exemplares remanescentes, e estão geminadas pela cumeeira, ou seja, na parte mais alta do telhado. Esta tipologia apresenta um projeto racional, geometria simplificada e funcionalidade espacial. Contemplam espaços de convivência, como sala e cozinha, com concentração da área molhada aos fundos, e o setor íntimo, com três dormitórios, disposto entre os dois pavimentos. Todos os ambientes possuem boas condições de ventilação e iluminação.

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Nessas residências, de aproximadamente 80m² de área útil, o projeto original estipulado pela fábrica para construção das moradias previa a acomodação de uma família com filhos, onde o setor intimo era dividido com o dormitório do casal no térreo, e os quartos do pavimento superior, ou sótão, para os filhos. As portas de entrada de cada residência ficam na lateral, com acesso através do afastamento lateral entre as unidades. Originalmente, as aberturas estavam arrematadas por vergas em forma de arco abatido.

Já as residências com 3 blocos geminados, a divisão das residências se faz pelo ponto mais baixo do telhado. Contemplam 3 residências cada, apresentam racionalidade e funcionalidade como característica. Seu projeto é distribuído de tal forma que permite que todos os compartimentos possuam janelas para ventilação e iluminação natural, mesmo na unidade do meio. As áreas molhadas – banho e cozinha- também ficam concentradas nos fundos da edificação, e cada casa possui três quartos.

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Essa tipologia, quanto ao nível de acabamento, é mais simples que a tipologia de casas duplas. As portas principais se localizam na fachada frontal, sobre as esquadrias apresentam-se vergas retas, e as paredes laterais são planas, sem saliências verticais como elementos estruturais.

A distribuição do espaço intimo acontece da mesma forma como na tipologia de casas duplas, com o dormitório do casal no térreo, e o outros dois dormitórios no sótão, sob a inclinação do telhado.

A partir de 1974, houve a possibilidade de compra e venda de algumas casas. Com isso, algumas residências sofreram intervenções ao longo do tempo para se adaptarem à demanda dos novos moradores. Isso é recorrente, apesar de a comunidade de Galópolis possuir a consciência de que a preservação do patrimônio industrial é importante para a conservação de sua história.

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Fonte de pesquisa:

Artigo: Patrimônio Industrial e Turismo: A Vila Operária de Galópolis, Caxias do Sul, RS, de Vania Beatriz Merlotti Herédia e Bruna Tronca.

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ANTIGO BANCO FRANCÊS E ITALIANO

Edificação de 1924, projetada pelo arquiteto italiano Luigi Gastaldi Valiera. Arquitetura com estilo eclético, com influências do estilo renascentista, característico da arquitetura comercial do Rio Grande do Sul na época e demais estilos como o romano e clássico.

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O lote da edificação possui uma medida de 11 metros por 88 metros, ou seja, tendo acesso tanto pela Av. Julio de Castilhos como pela Rua Pinheiro Machado, porém o acesso à edificação é somente pela Av. Julio de Castilhos.

O prédio foi edificado em um período de transformação da cidade, onde os prédios de alvenaria iam ocupando o lugar das casas de madeira, especialmente no centro onde os moradores possuíam melhor situação econômica. A localização do edifício e sua construção em alvenaria mostra a importância da edificação para a sociedade, uma vez que apenas na atualização de 1927 do Código de Posturas de 1920, foi determinado que todas as edificações do centro deveriam ter no mínimo dois pavimentos e construídas em alvenaria.

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Colunas da arquitetura clássica, grandes janelas, arcos romanos e fachada tripartida provenientes de uma arquitetura renascentista.

Um breve histórico

– Em 1910, se inicia a Fundação do Banco Francês e Italiano para a América do Sul, em Paris.

– De 1923 a 1924, é construído o prédio projetado pelo arquiteto Luigi Gastaldi Valiera.

– Em 1924, o térreo abrigou a sede para a Antiga Agência do Banco Francês e italiano para a América do Sul, e abrigava residências nos pavimentos superiores até 1939. Nesta data, o governo federal expede um decreto que corta qualquer ligação comercial com a Itália e a Alemanha e toma a edificação.

– Em data não identificada, a edificação foi leiloada e adquirida por Julio Eberle, e passa a fazer parte do conjunto de edifícios da cidade pertencentes à Metalúrgica Eberle.

– Julio Eberle muda-se para o segundo pavimento da edificação para ficar mais proximo à Metalúrgica Eberle.

– A edificação é vendida para Arminto Pereira dos Santos, atual presidente de Vacaria, e colocada para locação.

– O pavimento superior e inferior são alugados para a Imobiliária Campo dos Bugres.

– Logo após, o prédio foi alugado para o Banco da Lavoura e em seguida alugado para o Banco do Comércio.

– Em 1976, o prédio passou por uma reforma onde teve os seus gradis retirados e substituídos por panos contínuos de vidro. Essa foi a maior descaracterização do edifício em relação ao projeto original. Na imagem abaixo, é possível ver os gradis originais desenhados e confeccionados por Bazzo, da Metalúrgica Boca da Serra Caxias do Sul, no início do século XX.

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Fonte: Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami – 1965.

– Entre 1980 e 1993, o pavimento superior foi alugado para o bar e restaurante Don Rafael. Por possuir pequenos cômodos no segundo pavimento, em função do seu uso original de residência, houve a retirada das paredes de madeira. Até hoje é possível observar a localização original dessas paredes através das marcas deixadas no piso.

– Em 1982 o prédio foi alugado pelo Banco Mercantil do Brasil S.A., que permaneceu no imóvel até 2002.

– Em 1993, a edificação é adquirida pelo banco Santander S.A. – Arrendamento Mercantil

– Em 1996, foi construído o mezanino entre o térreo e o pavimento superior para servir de apoio ao Banco Mercantil do Brasil S.A.

– A partir dos anos 2000, a Guerra Empreendimentos Imobiliários adquire a edificação e coloca um estacionamento rotativo na parcela do lote com acesso pela Rua Pinheiro Machado. Posterior a isso, foi construída a Igreja Show da Fé e o depósito da igreja que se mantém até hoje, colados à fachada sul da edificação.

– a partir de 2010, o pavimento superior e sótão são alugados para a PET cursos.

– em 2003, a IBI administradora aluga o pavimento térreo, subsolo e mezanino, que permanecem até o início de 2017.

– Atualmente, encontra-se para locação.

A edificação originalmente possuía quatro pavimentos: o porão, onde estão localizados os cofres do Banco Francês e Italiano, o pavimento térreo, onde era exercida a função de banco, e o segundo pavimento e sótão, que serviam de moradia para os gerentes do banco. Passou por diversos usos e locações ao longo do tempo, e com isso sofreu uma série de intervenções, principalmente em seu interior. Mas muitas características originais permanecem na fachada principal, e será preservada em função do tombamento do prédio.

As principais características arquitetônicas dessa edificação do estilo eclético são a simetria, separação de andares na fachada através de cornija e vãos semicírculos. Apresenta diversos ornamentos sobre as portas, janelas e sacada. Na fachada é perceptível a tripartida renascentista, sendo ela a divisão entre base, corpo e coroamento por seus diferentes materiais.

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A base foi construída em pedra basalto regular, material abundante na região, e propicia ventilação ao subsolo semi enterrado.

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O coroamento, sustentado por uma faixa horizontal de mísulas, é feito através de um telhado de 3 águas.

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A fachada não sofreu alterações significativas, apenas pelo acréscimo da água furtada no telhado para a ventilação do sótão, a retirada dos gradis originais do térreo e a retirada dos canos de queda pluviais que deram luar a uma nova ornamentação.

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Edificação em 1947, com os canos de esgoto pluvial aparentes na fachada. Fonte: Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami.

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Foto atual, com ornamento colocado no lugar dos canos.

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Levantamento da fachada realizado por GABRIELA LUÍSA PIOLA, para o artigo “Banco Francês e Italiano: Elaboração de Documentos Gráficos e Pesquisa de Referência como Suporte para a Divisão de Patrimônio Histórico e Cultural de Caxias do Sul”, de 2016.

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Bandeira fixa em ferro com motivos florais.

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Coluna romana.

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Capitel de ordem coríntia.

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Vista interna do 2º andar. Foto retirada do artigo “Banco Francês e Italiano: Elaboraão de Documentos Gráficos e Pesquisa de Referência como Suporte para a Divisão de Patrimônio Histórico e Cultural de Caxias do Sul.”

Citação encontrada no processo de tombamento: “A edificação apresenta diversos ornamentos sobre as portas, anelas e escada. Ainda restam as bandeiras em ferro batido nas portas da fachada principal, que segundo diversas testemunhas, eram as mais belas e trabalhadas de toda a cidade… (Processo de tombamento, DIPPAHC)

Inscrito no Livro Tombo do Município de Caxias do Sul – folha nº022 -, em 18 de dezembro de 2003.

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Localização: Av. Júlio de Castilhos, 1781, no centro Histórico da cidade de Caxias do Sul.

Agradecimento especial à GABRIELA LUÍSA PIOLA, autora do excelente artigo “Banco Francês e Italiano: Elaboração de Documentos Gráficos e Pesquisa de Referência como Suporte para a Divisão de Patrimônio Histórico e Cultural de Caxias do Sul”, de 2016, que contribuiu muito com essa publicação.

PONTO DE CULTURA CASA DAS ETNIAS

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Construída junto ao complexo de edificações que formavam a Cantina Antunes, em meados de 1910, o casarão de dois andares abrigava a direção, o laboratório e o escritório da antiga Cantina.

Em 1984, após o encerramento das atividades na vinícola, equipamentos, maquinários, bens móveis e pipas foram leiloados e retirados do local. Em 1988, os prédios e área foram cedidos ao município de Caxias do Sul. Porém, a demora para dar início na recuperação desse patrimônio e falta de um uso específico resultou no estado total de abandono e deterioração do complexo.

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O complexo já em fase de abandono em 1982. Foto: Roberto Scola, banco de dados Pioneiro

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Parte dos prédios em 1984. Casarão à esquerda, onde funcionava o antigo escritório da vinícola, abriga hoje a Casa das Etnias. Foto: Luiz Carlos Leite, banco de dados Pioneiro

Somente a partir de 1998, a administração passou a desenvolver um projeto de transformação do espaço em um local de cultura. Funcionou também neste prédio o antigo o Albergue Municipal. Desde 2013,  abriga o Ponto de Cultura Casa das Etnias.

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Prédio antes da intervenção. Fonte: Correio do Povo

O prédio que integrava o complexo do Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho passou recentemente por ampla reforma e revitalização. Foram recuperadas as esquadrias, paredes, incluindo pintura externa e interna, estrutura de vigas e telhado. A fachada principal recebeu no pavimento inferior uma máscara com tubos metálicos, que segundo publicado pela SEPLAN, funciona como uma proteção, mas acaba escondendo a fachada original. Internamente, os antigos pilares de madeira foram substituídos por uma estrutura metálica, para permitir a utilização de um espaço cênico. Foram implantados novos sistemas para adequação ao novo uso, como por exemplo sistema de segurança, acessibilidade, elevador e ar-condicionado.

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Fachada após a reforma.

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Nova proteção para o acesso lateral.

Distribuídos em 500m², a casa possui no andar térreo uma sala multiuso, sanitários, escada de acesso ao segundo pavimento e plataforma elevatória para cadeirantes; no segundo pavimento possui cozinha típica, salas multiuso, sala de informática, biblioteca, hall, sanitários e depósito.

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Térreo recebeu nova estrutura metálica para dar forma ao espaço cênico

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O segundo pavimento reserva um espaço para exposições

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Espaço interno recuperado

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No local, se mantém uma série de fotos antigas da época da Cantina, contando a sua história

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O espaço onde funcionava o laboratório da antiga Cantina, deu lugar a uma cozinha típica

A partir de 2015, o Ponto de Cultura passou a ter a responsabilidade plena pela sustentabilidade do prédio, que fazia parte do complexo da ex-Cantina Luiz Antunes (do qual fazia parte também o prédio do Centro de Cultura Ordovás).

Localizado na Av. Independência, n 2542, Bairro Panazzolo em Caxias do Sul, RS.

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ANTIGA RESIDÊNCIA DE ABRAMO EBERLE

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Residência da família de Abramo Eberle e Elisa Venzon Eberle, construída em 1938, arquitetura rica em detalhes em estilo eclético inspirada no renascentismo italiano,  especialmente o florentino. Considerada uma das mais belas construções de Caxias do Sul, com projeto arquitetônico do escritório Barcelos & Cia, de Porto Alegre, e execução do engenheiro e construtor Silvio Toigo.

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O Palacete Eberle sendo construído em 1938. Foto: Studio Geremia, acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami

A volumetria é oponente e assimétrica, com destaque para a grande porta de entrada em arco redondo de ferro forjado encimado pelo brasão familiar. As arcadas do terceiro pavimento foram decoradas com motivos florais. No torreão, frisos e pilastras coríntias. Na fachada e laterais, medalhões em relevo e apliques com guirlandas. Vitrais foram utilizados em algumas aberturas, e delicadas balaustradas nas sacadas.

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O primeiro pavimento (que não aparece na fachada principal em função do declive do terreno) é revestido de pedra aparelhada rusticamente, e os demais o são com pó de pedra aglutinada. O palacete está localizado em meio a um belo jardim, com um pergolado nos fundos e um parreiral na lateral da casa. A propriedade é cercada de um gradeamento apoiado por pilares decorados de alvenaria, revestida de pó de pedra.

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Segundo o livro Memórias de Caxias do Sul pelo Viés do Patrimônio Tombado, escrito em 2008 por Heloisa Mezzalira, a residência possui quatro pavimentos. No porão, localizavam-se os aposentos dos empregados e uma sala de jogos, onde Sr. Abramo recebia os amigos. No primeiro pavimento se localizava a cozinha e a sala de jantar, sala íntima e de estar, onde a família costumava recepcionar visitantes ilustres, principalmente durante as Festas da Uva. No segundo pavimento ficavam os dormitórios, uma pequena capela e a varanda. Já o sótão estava reservado ao quarto de hóspedes, dotado de sala e banheiro.

A riqueza de detalhes, o luxo, fino acabamento e detalhes feitos à mão, nunca antes vistos em uma residência particular na cidade, se destacam em todas as dependências. Elementos modernos para a época eram encontrados no Palacete, como uma lareira elétrica no hall da casa, um piano, piso em mármore, entalhe nos portais e nas paredes pintura feita à mão pelo artista italiano Menegotto, que residia em Caxias no momento. Belíssimos vitrais nas janelas e no teto, executados no atelier dos Irmãos Conrado, em São Paulo, dialogam com suntuosas portas em madeira e cristal, confeccionadas no Liceu de Artes e Ofícios, também na capital paulista.

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Fonte: Jornal Pioneiro

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Fonte: Jornal Pioneiro

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Fonte: Jornal Pioneiro

Tombado pelo Patrimônio Histórico do Município em 6 de janeiro de 2006, o palacete abrigou a família de Abramo Eberle até 1945, com a esposa Elisa Venson Eberle e filhos. Quando Elisa faleceu em 1954, a residência permaneceu habitada pela filha Rosália e Aristides Peroni, seu marido, e foram os últimos moradores. Após anos fechada, a residência foi colocada para locação.

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Fonte: Jornal Pioneiro

Localizada a poucos metros da Metalúrgica, construída em plena ascensão econômica da empresa, na Rua Sinimbú nº 1549, esquina com a Rua Borges de Medeiros, em Caxias do Sul, RS.

Nota: muitas informações foram retiradas da reportagem do jornal Pioneiro “Memorias do Palacete Eberle”, publicada em 13 de janeiro de 2015 e do livro “Memórias de Caxias do Sul pelo Viés do Patrimônio Tombado” de Heloisa Mezzalira.

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Infelizmente não é possível fotografar esse exemplo da arquitetura da década de 40 em nossa cidade sem que apareça a poluição visual do seu entorno.

ANTIGA COOPERATIVA VINÍCOLA SÃO VICTOR

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A maioria da população caxiense sabe onde está localizada a Bulls, não é mesmo? Mas alguém sabe o que acontecia neste mesmo pavilhão, há 80 anos atrás?

Este edifício faz parte do complexo de pavilhões industriais da Antiga Cooperativa São Victor, atualmente Cooperativa Nova Aliança. O conjunto foi construído em diversas fases, desde a década de 30, passando por alterações na década de 60 e 70. O desenho arquitetônico do conjunto, mantido no Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, é datado de 3 de setembro de 1935.

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Fachada da cooperativa São Victor na década de 1950. Foto: acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami

O início da Cooperativa remete a 1929, na localidade de São Victor da 5ª Légua, razão do nome. O idealizador dessa organização foi o empreendedor Agostino Zandomeneghi, que adquiriu a primeira sede do grupo em 1930, na Rua Sinimbú. O terreno na Rua Augusto Pestana, junto à Estação Férrea, foi adquirido em 1932, para facilitar o transporte e a distribuição dos produtos, foi quando a empresa se consolidou no mercado. Em 2000 aconteceu a mudança de endereço, pela dificuldade de carga e descarga dos produtos nessa região. Em 2012, a São Victor passou a integrar a Cooperativa Nova Aliança.

O pavilhão que abriga atualmente a Bulls, projeto datado de 1968, foi a ultima construção do complexo, e possui um único pavimento, para função de abrigar pipas de abastecimento de vinho e seus derivados. A altura deste edifício foi modificada em 1970, com projeto oficialmente aprovado, deixando o pé direito mais alto, para atender a necessidade da cantina em armazenar pipas maiores e por consequência, maiores quantidades de vinho e seus derivados. Em 1973, passou por nova ampliação. Tendo a simetria de fachada como uma grande característica, as aberturas localizadas no frontão reforçam isso, além de garantir a ventilação superior e iluminação natural. Cobertura em duas águas, com grandes tesouras de madeira e base em pedra basalto.

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Foto anterior à intervenção. Fonte: Google – 2011

 

O projeto de intervenção assinado pelos arquitetos Vinicius Ribeiro e Cristian Moz, preservou a fachada principal da edificação, sem alteração tipológica ou morfológica, atendendo a legislação. Existia um reboco na parte interna, muito danificado, que foi retirado, deixando a alvenaria de tijolos cerâmicos artesanais aparente. A lateral não possuía reboco, mas foi realizado um trabalho de limpeza dos tijolos. O projeto de reforma também não alterou a estrutura do prédio, mantendo as aberturas originais. Internamente, permanece o corpo estrutural do prédio e toda a estrutura da cobertura aparente. Algumas paredes foram construídas, algumas demolidas, aberturas laterais fechadas, para adaptar o espaço à demanda da nova atividade. A reforma do prédio durou cerca de 1 ano.

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Fachada principal preservada

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Interior do pavilhão com os tijolos e estrutura do telhado aparentes

Anterior à intervenção, o pavilhão encontrava-se sem uso, deteriorado pelo tempo com vazamento no telhado e problemas estruturais. Ainda abrigava as gigantes pipas da vinícola, com aproximadamente 10m de altura. Os arquitetos tiveram a preocupação com o sítio com alto valor histórico, em manter a história da região e da estação férrea, local em atual desenvolvimento na cidade, mantendo a identidade da edificação.

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Também nesse período, outros pavilhões da antiga vinícola também receberam intervenções para abrigar o espaço de eventos do Café de La Musique. Trata-se da construção principal do complexo, cuja fachada em pedra é adornada pelo portão de ferro original dos anos 1930.

Reconhecido pelo município como um bem de patrimônio cultural, está atualmente em análise para o processo de tombamento municipal.

Localizada na Rua Dr. Augusto Pestana, nº 55, Bairro São Pelegrino na cidade de Caxias do Sul.

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RESIDÊNCIA DR. ENIO D’ANDREA

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Residência construída em 1963, idealizada pelo Dr. Enio D’Andrea, um dos primeiros médicos e laboratorista do Hospital Nossa Senhora de Pompéia e único proprietário do local.

Projetada pelo Eng. Civil Santana*, o qual foi lembrado apenas o sobrenome pela residente e filha do proprietário Virgínia D’Andrea Marcon, é um exemplo de residência no modelo racional, com linhas retas, ambientes práticos e funcionais, e poucos elementos arquitetônicos, onde prevalecem os aspectos construtivos, em especial os estruturais. Destacam-se os elementos decorativos em ferro na fachada principal e na escada de acesso.

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Com base em pedra, outros dois pavimentos em alvenaria e telhado com telhas cerâmicas, o edifício foi setorizado conforme suas funções: garagem no primeiro pavimento, social e serviços no segundo e íntimo no terceiro pavimento, reforçando o conceito de racionalidade. A relação da edificação com o terreno foi o aproveitamento máximo na largura e na parte frontal, mantendo os recuos mínimos obrigatórios, conformando assim um pátio aos fundos.

Ao longo da sua história, essa residência não sofreu nenhuma alteração significativa na disposição dos ambientes. Atualmente mantém a função original de residência e encontra-se muito bem conservada.

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O doutor Enio D’Andréa é filho do enólogo italiano Guido D’Andréa, um dos fundadores da Sociedade Vinícola Rio Grandense e da Granja União, e um dos precursores do cultivo de uvas finas na Serra Gaúcha. O italiano nomeia a Escola Municipal de Ensino Fundamental Dr. Guido D’Andrea, no distrito de Fazenda Souza e uma das ruas do bairro Marechal Floriano homenageia o enólogo.

A residência se localiza na Rua Bento Gonçalves, nº 2442, no bairro São Pelegrino, em Caxias do Sul, RS.

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 *O engenheiro referido na matéria trata-se muito provavelmente de Dario Granja Sant’Anna, que também nomeia uma escola no bairro Sanvitto. Agradcemos a colaboração de Rodrigo Lopez com essa informação.

ANTIGO LANIFÍCIO GIANELLA

 

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Mais um símbolo do patrimônio industrial de Caxias o Sul, o complexo arquitetônico que abrigava o Lanifício Gianella é um lugar por onde todo o caxiense passa, conhece, sabe onde está localizado, muito característico no bairro Santa Catarina, porém pouco valorizado em função do estado de deterioração e abandono que se encontra.

Mas ao entrar nesse complexo e, sobretudo, no edifício principal onde era exercida a atividade de tecelagem, se pode observar a riqueza arquitetônica e toda a história que já passou por ali, anda com resquícios da atividade, como restos de rolos e fios.

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O madeiramento original é todo aparente. As alterações arquitetônicas que o edifício sofreu com o tempo estão marcadas em sua alvenaria de tijolos cerâmicos aparentes, influência da arquitetura industrial inglesa, como o fechamento de alguns vãos e a elevação central no telhado que aparentemente foi posterior à data de construção, visível na fachada frontal e no interior do prédio.

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A moradia da família Matteo e Ermelinda Viero Gianella e a edificação da tecelagem integram o conjunto, tombado pelo Patrimônio Histórico do Município em 2003.

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A história do complexo se iniciou em 1915, quando o italiano Matteo Carlo Gianella, após experiência trabalhando com Hercules Galló no Lanifício São Pedro, instalou em Caxias do Sul a sua própria fábrica de tecelagem e confecção, no local que se encontra a edificação até hoje, aproveitando dos benefícios do Arroio Tega.

Com o falecimento de Matteo, em 1942, o negócio passou a ser conduzido pela viúva e pelos filhos Remo e Doviglio Gianella. Falecido em 2012, aos 95 anos, o empresário e ex-vereador Doviglio Gianella foi um dos personagens mais emblemáticos da cidade, colaborando com o desenvolvimento e expansão da indústria caxiense e grande envolvimento comunitário.

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Atualmente, uma pequena fábrica de gesso ocupa o pavimento inferior, sem nenhuma conservação, e o pavimento superior encontra-se vazio e sem uso. Localiza-se na Rua Professor Marcos Martini, bairro Santa Catarina, às margens do Arroio Tega, ainda se mantém boa parte do edifício, ainda que pouco conservado.

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Um projeto para Caxias do Sul

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Pouca gente sabe, mas sou uma arquiteta apaixonada por Patrimônio Histórico. Foi por essa razão que me especializei, fiz um Mestrado em Conservação e Restauração do Patrimônio Arquitetônico na Universidad Politécnica de Madrid, e estou sempre atrás de informações sobre este assunto.

Estamos agora, através do projeto Limpa Caxias, descobrindo edifícios no centro da nossa cidade antes escondidos pela publicidade. Por não ver essa paixão e preocupação no cidadão caxiense, eu resolvi pesquisar, conhecer e reunir conteúdo para compartilhar um pouco da história de edifícios antigos, detalhes arquitetônicos, espaços relevantes, não necessariamente tombados, mas que façam parte da memória da nossa cidade, visando o resgate e conservação do Patrimônio Histórico. Somente conhecendo a história, aprendemos a valorizar.

Será um projeto para Caxias do Sul, a ideia é que seja uma troca de informações. Então quem tiver conhecimento sobre edifícios ou locais, sugestões para pesquisa ou simplesmente curiosidade sobre algum edifício específico, manda uma mensagem ou um email que será muito importante para o projeto. Estarei compartilhando conteúdo nos canais abaixo.


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