ANTIGO AUTO PALÁCIO

A edificação que abrigava a antiga concessionária da General Motors, localizado na esquina da Rua Sinimbú com a Rua Guia Lopes, na cidade de Caxias do Sul, denominada Auto Palácio foi projetada pelo italiano Silvio Toigo e tem como característica o estilo Art Déco.

aa.jpg

Fachada do Auto Palácio recém construído. Fonte: AHMJSA.

Nascido em 1889 na província de Beluno, Silvio Toigo se estabelece em Caxias do Sul em 1922, e desenvolve suas atividades como arquiteto-construtor até 1954. Foi reconhecido por dominar a técnica da construção com o uso do concreto armado, assumindo assim obras de grande relevância a nível municipal, como a Estátua da Liberdade, o prédio do Círculo Operário Caxiense, a Casa Magnabosco, o Cine Guarany, o Clube Juvenil, a antiga Metalúrgica Eberle, entre outros, transitando entre diferentes estilos e tipologias arquitetônicas. Verifica-se que nem todos estes projetos foram de sua autoria, muitos foram elaborados por arquitetos da capital do Estado, e sofreram alterações antes da efetiva construção. Dessa forma, conforme pesquisa sobre o tema, surgiu uma série de informações contraditórias, lacunas e problemas conceituais na sua obra, uma vez que no início da sua trajetória profissional não eram exigidos diplomas no RS para o exercício da profissão de arquiteto. Silvio Toigo inicia sua carreira como mero construtor, mas na medida em que sua produção autoral evolui, assume maior autoridade para propor alterações nos projetos que executa e, ao final, transcende a posição de profissional de nível supostamente inferior para tornar-se protagonista, trazendo para a cidade uma modernidade possível. Faleceu em 1964, e hoje possui uma premiação na cidade em seu nome, o Mérito Silvio Toigo de Construção Civil, pois foi sem dúvida responsável pela consolidação do Art Déco na cidade e contribuiu para a renovação da arquitetura local.

Segundo a autora Ana Elísia Costa, no final da década de 30 e ao longo da década de 40, o estilo Art Déco é adotado como tradutor da modernidade, um estilo capaz de exprimir novas idéias tanto em Caxias, como em boa parte do Brasil. Suas linhas geométricas são adotadas em edifícios educacionais, industriais, residenciais e também nos edifícios comerciais como o Auto Palácio, nas palavras da autora “talvez a manifestação mais espetacular do Art Déco em Caxias do Sul”.

Esse contexto de modernidade influenciou a produção de novos edifícios, com volumes geometrizados, associados a superfícies curvas, que começam a surgir no espaço urbano. O edifício do Auto Palácio é um dos edifícios mais emblemáticos da cidade neste estilo que predominou até meados da década de 50. O prédio se eternizou na memória coletiva por acompanhar um processo de urbanização e modernização da cidade, reforçando o reconhecimento de valor cognitivo e afetivo da edificação.

O uso de volumes puros definidos geometricamente e o uso de formas semicirculares nas esquinas e balcões, são características que se iniciaram em Porto Alegre no início da década de 30, e inseridas no contexto regional por Silvio Toigo. A simetria das fachadas é explorada ao máximo, marcada pelo acesso principal e pelo escalonamento da platibanda que arremata a cobertura. Essa simetria só é quebrada quando um acesso de esquina também valoriza a composição, como no caso do edifício estudado.

Um eixo parcial de simetria acontece na Rua Sinimbú marcando um dos acessos. A esquina é valorizada com uma marquise que protege o abastecimento de veículos, assim como o acesso do setor comercial. Percebe-se um início da exposição deste setor comercial com o uso de amplas janelas envidraçadas. A horizontalidade é amenizada pelos frisos verticais, conferindo à edificação certa monumentalidade.

Na ordenação das fachadas, a disposição de janelas verticalizadas, a maioria do tipo vitrô
basculante de ferro, estabelece um ritmo de cheios e vazios. No pavimento superior, projetado inicialmente como apartamentos, o ritmo das janelas se repetem. Esse mesmo ritmo ainda é buscado pela ornamentação em baixo e alto-relevos. Além do ritmo, a escala é outro meio estético de composição de fachadas – a marcação da base-corpo-coroamento é muito comum através do emprego de frisos e molduras geometrizadas. A unidade é alcançada através de composições monocromáticas.

Quanto à habitabilidade, observa-se ventilação e iluminação permanente nos ambientes. As paredes foram erguidas em alvenaria e estruturadas em concreto armado, dada à exigência do programa, e a planta livre foi buscada através da modulação da estrutura de concreto.

1
O interior da edificação na época da construção. Fonte: IMHC – Instituto Memória Histórica e Cultural da Universidade de Caxias do Sul.

Essas características são comuns nos edifícios industriais construídos na década de 40, principalmente do ramo metal-mecânico. É o período de implantação da indústria pesada no país, com destaque para a criação da Cia. Siderúrgica Nacional, em 1941, e de volta Redonda em 1946, que quadruplicou a produção de aço no país e estimulou as indústrias mecânicas e metalúrgicas.

3.jpg

O interior da edificação em sua fase comercial. Fonte: IMHC – Instituto Memória Histórica e Cultural da Universidade de Caxias do Sul.

No fim da década de 40, começa a surgir a visão do produto acabado, onde a arquitetura passa a ser promotora de um tipo de publicidade, e reconhece-se o valor pragmático, quando um edifício possui certa expressão arquitetônica que passa a ilustrar folhetos e propagandas da época.

ab.jpg

Fonte: Edição especial de O Momento, número 752, de 7 de setembro de 1947.

O edifício atualmente encontra-se bastante descaracterizado. A fachada sul é a que mais preserva as características originais, exceto pelo fechamento da esquina. Recebeu adaptação da porta da esquerda para um estacionamento, mas mantém as mesmas aberturas concebidas em projeto. A esquina foi fechada, e se desconhece a informação se as vitrines em curva que predominavam a esquina foram mantidas no interior da edificação, ou se foram removidas.  Essa informação somente poderia ser confirmada com um diagnóstico mais criterioso. A marquise em curva da esquina foi escondida por uma platibanda metálica.

ac.jpg

Fachada atual Rua Sinimbú. Foto: autora.

ad.jpg

Fachada atual da esquina. Foto: autora.

A fachada leste sofreu maiores intervenções. Em um projeto de reforma encontrado no Arquivo Histórico Municipal, foi observada que a edificação original com terraço foi substituída por um pavilhão industrial com treliças metálicas curvas. As aberturas e ornamentos também receberam modificações significativas, com a alteração nos vãos e o acréscimo de uma abertura central para acesso de veículos. A cor desta fachada encontra-se diferente do restante do prédio, como uma maneira de demarcação de espaços. O interior da edificação não foi investigado.

 

ae.jpg

Fachada atual Rua Guia Lopes. Foto: autora.

af.jpg

Interior do pavilhão construído posteriormente. Foto: autora.

Como sugestão para futuras intervenções, a diretriz principal seria a conservação, ou seja, a conservação do monumento em seu estado atual, com algumas adequações funcionais e consolidação estrutural para perpetuação da vida útil. Seguindo este critério, alguns elementos introduzidos ao longo do tempo, e que não possuem qualidade formal, poderiam ser subtraídos, como por exemplo, o fechamento da esquina. Independente se as paredes originais curvas foram mantidas, esta intervenção retomaria o valor da esquina como espaço aberto, parte da via pública, elemento de circulação de pessoas e garantia de visibilidade.

Em contrapartida, outros elementos não poderão ser retomados, como no caso do terraço na fachada leste. Apesar de possuir um valor estético inferior ao projeto original, o pavilhão construído em dado momento faz parte da história deste local e de todas as transformações que sofreu. Reconstruir o monumento adotando um período ou estilo que a obra não possui mais é chamado de repristino, conforme conceito citado pela autora Patrícia Viceconti Nahas, e poderia ser confundido com um falso histórico, além da desconsideração pela historicidade.

Fontes de pesquisa:

Artigo escrito pela mestranda Michele Maria Venzo para o Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Porto Alegre, 25 a 29 de Julho de 2016: A produção do arquiteto construtor Sílvio Toigo: influências do projeto à execução. 
“No início de sua trajetória profissional não eram exigidos diplomas no Estado do RS para o exercício de qualquer profissão. A arquitetura era considerada um exercício de uma atividade e não de uma qualificação profissional. Um mesmo profissional poderia assumir o papel de arquiteto, engenheiro, topógrafo, construtor, projetista, desenhista, fiscal, dependendo do trabalho que estaria circunstancialmente realizando. A diferenciação entre ‘construtor’ e ‘arquiteto’ era confusa, em virtude da contraditória resolução do Sistema CREA-CONFEA, instituídas a partir da regulamentação profissional em dezembro de 1933.”

Dissertação de mestrado de Ana Elísia Costa para o programa de pesquisa e pós-graduação em arquitetura da UFRGS: A evolução do edifício industrial em Caxias do Sul: de 1880 a 1950. Caxias do Sul, 2001.

Patrícia Viceconti Nahas, autora do texto: Antigo e novo nas intervenções de caráter monumental: a experiência brasileira (1980-2010). Revista CPC, São Paulo, n. 20, p. 78-111, dez. 2015.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s